Ainda existirão advogados no futuro?

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Tenho observado nas conversas com executivos de negócios e de TI que muitos ainda consideram a Inteligência Artificial (IA), os veículos autônomos e os robôs convivendo entre nós um cenário ainda futurista. Mas já está acontecendo e nem percebemos. Usamos isso cotidianamente em apps e sites de comércio eletrônico que nos sugerem o melhor caminho, o filme que gostaríamos de assistir e o produto que teremos interesse em comprar. Várias empresas de tecnologia estão trabalhando ativamente em tornar a IA mais e mais lugar comum. O recente lançamento do Messenger, do Facebook, com recursos de chatbots é mais um passo nesta direção.

O que o avanço da Inteligência Artificial embute no nosso dia a dia? Uma mudança significativa no futuro de várias profissões. Já aceitamos e convivemos com a realidade de tarefas de baixa qualificação substituídas por automação. Mas e quando esta começa a chegar ao nível dos tomadores de decisão, os “knowledgers workers”?

A realidade está mostrando que a indústria da música, agências de viagem, jornais e agora táxis se transformaram ou estão em processo de transformação. Setores sólidos e tradicionais simplesmente desabaram e tiveram que encontrar novos modelos de negócio para sobreviverem.

Vamos pegar uma tradicional profissão, a advocacia. Uma provocação que podemos fazer é: “ainda existirão advogados no futuro?”. A taxa de acertos em previsões futuristas é mesma de chimpanzés jogando dardos e acertando o alvo, mas podemos debater algumas ideias e tirarmos conclusões por nós mesmos. Claro, desde que não nos apeguemos a crenças e paradigmas que nos limitam o olhar crítico.

Vamos analisar o contexto. As práticas de trabalho dos advogados não mudaram muito nas últimas décadas. Recomendo um livro instigante, “The Future of the Professions: How Technology Will Transform the Work of Human Experts”, que mostra o potencial de disrupção diante de várias profissões como as conhecemos hoje.

O livro mostra que os advogados oferecem assessoria personalizada de alto custo e que os sócios dos prestigiados escritórios presidem organizações em forma de pirâmide, recebendo altas comissões, enquanto batalhões de advogados principiantes fazem o trabalho árduo de buscar precedentes e elaborar contratos. Os altos custos destes escritórios e dos seus honorários propiciam um cenário aberto à disrupções. O livro faz uma comparação simples, com os veteranos taxistas de Londres, que para obterem seu certificado precisavam dominar de memória a geografia das ruas. O serviço era, portanto, caro. E foi rompido pelo Uber, que atraiu batalhões de motoristas que cobram barato e navegam por GPS. Isso não poderá acontecer com os advogados?

Já existem algumas iniciativas muito interessantes, ainda desdenhadas pelos advogados tradicionais, que  podem provocar um efeito Uber nos próximos anos. Por exemplo, a NextLaw Labs, empresa de tecnologia mantida por um escritório global de advocacia, está financiando startups de tecnologia jurídica. Um dos seus primeiros investimentos é uma startup chamada Ross Intelligence, que usa o Watson da IBM para realizar parte das pesquisas feitas atualmente por advogados júnior.

O  “Report: artificial intelligence will cause “structural collapse” of law firms by 2030” é bem acertivo ao afirmar que visualiza em 15 anos um colapso estrutural dos tradicionais escritórios de advocacia, pelo menos em alguns países na Europa e EUA. Alguns exemplos sinalizam que este cenário pode se tornar realidade. Alguns escritórios de advocacia nos EUA já usam Inteligência Artificial como “associado digital”, delegando a algoritmos preditivos a tarefa de executar buscas inteligentes por documentos, pareceres e jurisprudências referentes aos casos em análise.

Interessante que uma análise feita na Europa e EUA, sobre o uso de IA na advocacia, mostra que, salvo raras exceções, não são as tradicionais bancas de advogados, mas novos entrantes que investem no conceito. Vemos que o momento do Uber, Airbnb, Skype e Whatsapp se repete. As empresas estabelecidas tendem a ser conservadores e lutam para preservar seu modelo de negócios.

Enfim, estamos diante de mudanças significativas na sociedade e praticamente nenhuma função ou setor de negócios estará a salvo das transformações. Recomendo ler o texto “The Great Disruption: how Machine Intelligence will Transform the Role of Lawyers in the Delivery of Legal Services”. Ele mostra quais as atividades realizadas pelos advogados estão mais sujeitas à disrupção (busca por documentos, pareceres, criação de formulários, textos e memorandos, e mesmo predição dos resultados das causas em julgamento), como essa disrupção vai afetar o setor como um todo e como, provavelmente, os escritórios de advocacia irão usar seus talentos para combater a inovação.

Há um caso bem interessante de uso de algoritmos preditivos para auxiliar na tomada de decisão em casos que envolvem litígios em patentes, como o desenvolvido pela startup Lex Machina, que analisando dezenas de milhares de casos se propõe a predizer o resultado de determinado litígio.

O cenário conturbado, como o contexto que vemos hoje envolvendo o Uber e os taxistas, certamente vai acontecer quando os escritórios de advocacia sentirem reais ameaças ao seu modelo atual. Mas, alguns entenderão que o processo é irreversível e os vencedores serão os que conseguirem fazer o mix certo entre advogados e tecnologia.

(*) Cezar Taurion é CEO da Litteris Consulting, autor de seis livros sobre Open Source, Inovação, Cloud Computing e Big Data

Revista: CIO

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