Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no google
Google+
Compartilhar no linkedin
LinkedIn

Sobre ética, tragédias, fotos e selfies

Uma reflexão sobre o comportamento de fotografar ao invés de ajudar!

Não esqueço das lições que aprendi com Stephen Covey acerca das “Éticas”. Vivemos em um mundo anestesiado e impulsionado pela ética da “personalidade”, de desenvolvimentos da “casca pra fora” e de hacks mentais para ser aceito, popular, influente ou conseguir o que se deseja do outro.

Estariam aqui inseridas a busca frenética por habilidades de comunicação, desenvolvimento pessoal, técnicas de vendas, marketing, dentre outros conhecimentos que inobstante serem relevantes, não mudam ninguém e não são, segundo o autor, por si só suficientes. Nada comunica melhor, a longo prazo, do que o caráter.

Na ética da personalidade, temos uma ultra valorização da imagem pública e neste contexto vale tudo, exposições, vídeos, selfies, algo que viralize e possa me tornar um “influencer”, famoso ou popular.

Na Argentina, um grupo de turistas encontrou um filhote de Golfinho fora das águas e ao invés de devolvê-lo, tiraram selfies com o animal, que logicamente morreu. Não existia ali vontade de ajudar, empatia,  qualquer reflexão ética, mas a mera vontade de aparecer e se expor. Na Itália, um homem tirou selfie enquanto uma mulher acidentada era atendida em estação do trem em Piacenza.

No Brasil, incontáveis aberrações dignas de um “recall da humanidade”. De velório à tragédias, passando por autópsias de celebridades.  Recentemente uma atriz chegou a postar “selfie produzida” em “reza por Brumadinho”, ápice do oportunismo e necessidade de engajar até mesmo explorando as tragédias. Enquanto isso, em um acidente que vitimou um jornalista, fotos eram tiradas quando ainda os vitimados precisavam de apoio.  “Ajudar para que não é mesmo?”  Freud (1914), destacou se tratar de narcisismo, as ações tomadas que buscam elevar o “ego” do indivíduo, como ele se vê se e entende.

Os valores se invertem e o que era de se esperar passa a ser a virtude e a “ultima crença” na humanidade. Brasil, temos “heróis”. Na Siria, Abd Alkader Habak, fotográfico que largou sua câmera para salvar uma criança no momento da explosão de um caminhão bomba tornou-se um ícone.

Em uma “modernidade liquida”, tratada com propriedade por Baumann, estamos sempre nos moldando ao menor sinal de pressão, o que inegavelmente nos faz agir por impulsos, em reações impensadas… Em nítido culto à própria imagem, é preciso retratar fatos que possam me impulsionar. No pior cenário, apago depois, assim como me desconecto facilmente de um “amigo” em uma rede social, sem ter que me explicar…

Como reagiremos a tudo isso? A verdadeira mudança estaria inserida na ética do caráter, rara e que leva em conta princípios de humildade, simplicidade, integridade, fidelidade, persistência, coragem, justiça, diligência, modéstia e principalmente, “a roda”,  não fazer aos outros o que não quisermos que os outros nos façam. Esta ética não se preocupa com resultados rápidos ou com a “viralização de conteúdos”.

Pois como asseverou Baumann, muitos dos problemas atuais decorrem do excesso de individualismo, que leva ao afastamento dos cidadãos à vida em comunidade. A comunidade não existe mais, está morta.

Isto porque a vida em comunidade pressupunha a aproximação, o contato, os relacionamentos, a ajuda e o receber ajuda, o pensar no próximo. Caminhamos para a exclusão do outro em nossos momentos individuais, pois em um mundo liquido, é cada um por si e pouco me importa a dor do outro.  

As selfies em tragédias, as fotografias de brigas que poderiam ser impedidas, os retratos impensados de um acidente que acaba de acontecer, via de regra, atestam os rumos da nossa sociedade, onde a liquidez dos relacionamento e nítida impossibilidade de pensar no outro se escancaram, no que denominamos de absoluta individualidade, que é manifesta por impensados comportamentos e pensamentos acelerados, e que vem causando danos irreparáveis e lesão a honra e imagem de pessoas, além da dor de familiares em conviverem por tempo indeterminado com os referidos conteúdos.

Para onde estamos indo? Não podemos afirmar. Criminalização de selfies em determinadas situações? Não podemos afirmar… Mas um ponto merece atenção. É preciso repensar a educação, considerar a ética do caráter, retomar a solidez dos relacionamentos e principalmente, analisar a influencia das tecnologias neste processo de extremo individualismo e enfraquecimento ético, para não dizer “emburrecimento”, onde tudo que se busca são curtidas, plateia e de certo modo, algum raso pertencimento.

José Antonio Milagre é Advogado, Palestrante, especialista em Crimes Digitais, Mestre e Doutorando pela UNESP, fundador do IDCI – Instituto de Defesa do Cidadão na Internet e Presidente da Comissão de Direito Digital da OAB/SP Regional da Lapa www.youtube.com/josemilagre

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima